Laurent Suadeau, um chef de opinião

Laurent Suadeau, um chef de opinião

Laurent Suadeau, um chef de opinião

Um dos principais chefs franceses no Brasil, diz que o esnobismo do brasileiro à mesa põe em risco o melhor da nossa tradição gastronômica: a comida de boteco

Diego Viana e Gabriela Longman

Entrevistado em Paris e fotografado em São Paulo, Laurent Suaudeau acha que a política, queiramos ou não, é um ingrediente indispensável também na cozinha. Um dos principais chefs franceses no Brasil, diz que o esnobismo do brasileiro à mesa põe em risco o melhor da nossa tradição gastronômica: a comida de boteco. Em contrapartida, criou sua própria escola de cozinha, na qual a mandioquinha, a jabuticaba e outros frutos da terra ocupam lugares nobres em uma fusion bem temperada entre as culinárias brasileira e francesa

Ele está doido para dizer o que pensa. As entrevistas, em geral, só querem saber de novas receitas". Foi assim que Janaína, filha de Laurent, respondeu ao nosso telefonema, pedindo uma entrevista com o chef, de passagem por Paris. Janaína intermediou o encontro. Aos 25 anos, é ela quem ocupa o apartamento parisiense da família. Há sete anos no país do pai, formou-se em teatro no Conservatório Nacional e hoje toca sua carreira de atriz. Seu irmão, Gregory, de 21 anos, acaba de retornar ao Brasil de uma temporada no Canadá, onde estudava para se tornar aviador. Nenhum dos filhos do Laurent se interessou pela profissão do pai.

Apesar de situado no oitavo arrondissement, um dos mais nobres da capital francesa, o apartamento não é próximo de nenhum ponto turístico. A rua é calma, mas estrategicamente próxima à Rue de Lévis, onde podem ser encontrados todos os produtos frescos para uma cozinha exigente. Três boulangeries, duas fromageries, várias boucheries (padaria, loja de queijos, açougue e embutidos), quitandas, peixeiros e duas lojas de vinho, bien sûr. É nessa rua que Laurent, principal cheffrancês do Brasil ao lado de seu amigo e compadre Claude Troisgros, faz suas compras quando vem a Paris.

Quem entra na casa dos Suaudeau é logo convidado a trocar os sapatos da rua por pantufas, hábito imposto pela filha e aceito pelo pai, mesmo que ele não esteja muito de acordo. Na sala de estar, quadros, móveis e bibelôs fazem referência ao Brasil e remetem à estética de Debret, o mais lembrado dos pintores da missão artística francesa de 1816.

À vontade em suas pantufas, ele desata a falar com grande empolgação e quase sem pausas. Mistura ao sotaque francês as influências das cidades brasileiras em que viveu: Rio de Janeiro, de 1979 a 1991, e São Paulo daí em diante. A língua materna só escapa quando Laurent se exalta. E, aos 53 anos, quase 30 no Brasil, o filho de sindicalista, aprendiz de Paul Bocuse e formador de cozinheiros, se exalta diversas vezes, enquanto conecta suas experiências de vida a suas leituras e opiniões: "Comer algo que parece ser e que não é. Que o cheiro parece ser o que não é, que o gosto parece ser o que não é. Ça me dérange beaucoup. J'irais plus fort: ça m'emmerde!(Isso me incomoda muito. Diria mais: isso me dá no saco!)", é como ele se refere aos extremismos da cozinha molecular.

Antes de os gravadores serem ligados, o chef aponta para os dois livros que descansam sobre a mesa. La Crise, et Après?, de Jacques Attali, e Le Livre Noir de la Révolution Française, volume de quase 900 páginas com artigos de diversos historiadores. "A leitura ajuda a me posicionar. Como cidadão, claro, mas também quando estou atrás das minhas panelas." Sem que seja necessário fazer perguntas, ele deságua ideias sobre a crise global, o desenvolvimento do Brasil, a alimentação como indicador cultural.

Nascido em Cholet, cidade do vale do Loire cuja população monarquista foi massacrada com extrema violência durante a Revolução Francesa, em 1793, Laurent considera que o posicionamento político está no sangue. Seu avô era um irlandês do norte que emigrou para a França em 1922 para escapar da miséria e da dominação inglesa. Durante a guerra, foi preso pelos nazistas. Enquanto isso, sua família teve negado o direito a cartões de racionamento pela administração francesa, com a desculpa de que eram esposa e filhas de um estrangeiro. "Ele engraxava as botas e lavava os cavalos dos alemães. Fazia todo serviço possível, para poder comprar leite para minha mãe e minha tia", conta Laurent. O episódio marcou a mentalidade da família, que se tornou refratária à autoridade.

Seu pai comandava a ação sindical na fábrica de eletrônicos da Thompson, na época a principal marca de eletrodomésticos da França. De rifle na mão, bloqueou a entrada da empresa durante a crise de 1968, mais lembrada pelas barricadas de estudantes no Quartier Latin de Paris. Socialista e batalhador, André Suaudeau teve dificuldade em aceitar que o filho preparasse refeições sofisticadas e caríssimas para as elites que ele mesmo se dedicava a combater. "Ele nunca quis comer comida elaborada. Meu pai era bife, batata frita, salada e torta de maçã. Nada mais." Durante uma discussão, chegou a enunciar uma sentença que representou uma quase ruptura na família: "Vá lá servir seus bacanas. Você pertence a um mundo que não é o meu". Laurent tinha 17 anos.

A proximidade com o debate político produziu no chef uma percepção clara de que sua profissão não era uma mera fonte de prazer. Por isso, a reflexão social não está reservada para as horas vagas. A alienação é que lhe parece um contrassenso: "Com 17 anos, eu tinha lido o Manifesto Comunista e liderava greves no liceu em que estudava. Ninguém entra, ninguém sai. E toda essa história se reflete na vida profissional e nas receitas que cozinho".

Nem sempre Laurent precisou ir até a política. Ela, às vezes, também ia em sua direção por conta própria. Ao aterrissar no aeroporto do Galeão em 15 de dezembro de 1979, encontrou-se em um país que vivia os estertores de uma longa ditadura. Designado para passar seis meses como segundo chef no restaurante Le Saint Honoré do Hotel Méridien, em Copacabana, ele acabou ficando e estabeleceu uma relação de muita proximidade com seus subordinados da cozinha. "Eu pegava minha equipe e levava para o salão. No meu português daquela época, ensinava geografia, mostrava onde fica a França, sentava com uma meia dúzia... queria vê-los crescer." Seu jeito franco e aberto não deixou de chamar a atenção de um diretor do hotel, que era informante da Polícia Federal, no governo de Figueiredo, e viu naquele estrangeiro baixinho um perigoso agente subversivo.

"Cheguei em um Brasil onde o expressar-se era quase proibido ainda. Um dia, cerca de 11 horas da manhã, a PF foi me buscar. Eram cinco 'armários'. Subiu um e se apresentou: 'O senhor queira nos acompanhar para uma verificação'. Fui à Praça XV, entrei naqueles corredores, fui recebido por um cara que folheava uma pasta. Depois, me liberaram sem explicações. Só fui saber o que aconteceu muitos meses mais tarde."

O objetivo inicial de Laurent era partir para os Estados Unidos ao final de seu período como assistente no Brasil. As brigas eram tantas que ele ameaçou várias vezes voltar mais cedo. Assim que chegou, ficou horrorizado com a qualidade dos produtos que tinha para trabalhar: peixes longe de frescos, legumes de qualidade duvidosa e, sobretudo, cópias indigentes das receitas europeias. Ele enviou a Paul Bocuse, seu chefe, um telegrama em que dizia: "Aqui, eu não fico". Mas o chefe lhe ordenou que ficasse.

A solução foi pedir um adiantamento do salário e seguir para a feira na companhia de um cozinheiro, atrás dos produtos da terra. Na volta, como não o deixavam entrar pela garagem, contornou o edifício e atravessou o saguão principal, por entre os hóspedes, com sacolas cheias de agrião e robalo. Interpelado por um diretor do hotel, não teve dúvida em responder: "Se não está bom assim, pode ligar para o papai lá na França e providenciar minha passagem. Vou-me embora, não tenho nada para fazer aqui se não for sério".

Se a diretoria do hotel torceu o nariz para o rapaz de 23 anos que teria de aturar, a equipe da cozinha se identificou com o francesinho: "Sempre me pergunto. Será que é porque eu tinha uma origem no operariado e me sinto bem no meio de pessoas mais simples?". Apesar da barreira da língua, em poucas semanas ele já ouvia samba com cerveja na Baixada Fluminense e conhecia o Maracanã. Foi lá que, por influência de um cozinheiro, tornou-se torcedor do Flamengo, embora considere a cultura futebolística "religiosa demais" no Brasil.

Menos de dez anos mais tarde, cozinharia para presidentes, príncipes e coronéis, mas a lembrança da chegada segue muito viva: "Guardo minha mala até hoje. Pousei no Galeão, o mar ali na frente, o céu azul, era um dia lindo, lindo...". Mas a praia quase não viu a cor bastante clara do jovem chef, que passava seus dias inteiros dedicado ao trabalho. Cozinheiro queimado de sol, ele explica, é coisa muito suspeita. Sua dedicação foi logo recompensada. O chef principal do Saint Honoré partiu para os Estados Unidos e ele foi alçado ao comando da cozinha, mesmo contra a vontade de seus antagonistas da administração. Em 1986, abriu seu próprio restaurante no Rio de Janeiro.

A revolução que Laurent provocou na alta gastronomia brasileira pode ser resumida nas palavras mandioquinha, tucupi e jabuticaba. Mas também poderíamos dizer milho verde, maracujá ou quiabo. O chef é um defensor do uso de ingredientes regionais desde seus primeiros anos de formação, em Batz-sur-Mer, vilarejo de três mil habitantes conhecido na França por suas salinas. Foi lá que ele trabalhou no restaurante Les Prés et les Sources, de Michel Guérard, seu primeiro maître d'apprentissage. A tradição francesa do terroir é a base de seu trabalho e, na sua opinião, um dos mais importantes legados do país, ao lado de Molière e da Declaração Universal dos Direitos do Homem. "Ninguém ainda falava em ecologia. Mas a consciência de cozinhar com produto gostoso e de qualidade era tão enraizada na cultura francesa, que tudo se fazia de forma natural."

Para Laurent, o modo como as pessoas e os povos lidam com a alimentação é um indicador de seu desenvolvimento cultural. "Associo minha profissão ao crescimento do ser humano. Quem não come bem nunca vai ter os elementos necessários para batalhar de forma igualitária. Antes de falar na gastronomia como um prazer, ela é sobrevivência. Temos de comer, todos. Depois, a interpretação do como comer e como cozinhar é outra história. Eu coloco meu metiê num contexto de reflexão social, cultural, econômica e ecológica. Será que a gente não tem de ter uma postura mais humilde perante a natureza? Respeitá-la mais e saber trabalhar melhor aquilo que ela nos dá de graça, sabe-se lá até quando?" Daí a necessidade de conhecer a procedência dos produtos e respeitar o que se vai comer.

Nos últimos anos, porém, o governo francês vem reduzindo os padrões de exigência para a produção de queijos, vinhos e outros produtos da terra, deixando furiosos muitos amantes da boa mesa. O exemplo mais recente é a mistura de vinho tinto com branco para produzir o rosé (o verdadeiro rosé é feito a partir de um processo complexo e custoso de fermentação). Laurent comenta a questão em poucas palavras, rindo: "Pois é, acho que enlouqueceram". Para um cozinheiro, é o sintoma mais claro da decadência cultural da França, atingida pelo lado menos brilhante da globalização: a padronização do gosto.

A essa tendência se opõem movimentos de resistência, como a agricultura orgânica, o comércio justo e o slow food. Laurent se orgulha de usar cada vez mais os produtos desses movimentos e lamenta que o Brasil tenha escolhido outro caminho: "O incentivo ao agribusiness é muito grande. Como sabemos, há interesses aí que não são da ordem do desenvolvimento do ser humano. É business, portanto, monocultura". Produzido sob essas condições, o alimento não tem o mesmo sabor, a carne é "puro hormônio" (assinalado com o gesto de repetidas injeções) e a procedência é questionável. Os reflexos, diz o chef, são visíveis longe do campo. "Há várias iniciativas para acabar com a feira-livre no Brasil, inclusive em São Paulo. Isso não pode! É um absurdo! Tinha é de ter mais e ser mais respeitada."

A feira é um tema caro para Laurent. É o paradigma do contato autêntico com o alimento e seu produtor. Foi em uma feira do Leme, zona sul do Rio de Janeiro, que ele viu pela primeira vez uma jabuticaba, fruta que faz as vezes de símbolo nacional no Brasil. "Quantos produtos diferentes não encontrei numa feira de rua! Ali, o que se estabelece é uma relação pessoal. Se não fosse ela, talvez eu nunca tivesse contato com a mandioquinha." Na França, um episódio corriqueiro restabelece sua fé na humanidade. Uma criança agarra um pêssego e a mãe a obriga a devolvê-lo com um tapa na mão. Em tom de reprimenda, ela explica que a fruta não é brinquedo. Outra pessoa virá comprá-la e comê-la. O vendedor dá razão à mãe e Laurent sente que foi Deus que o colocou diante da cena.

A esposa do chef, Sissi Suaudeau, maior responsável pela permanência dele no Brasil, interrompe o discurso do marido trazendo café e biscoitos amanteigados da Bretanha. Enquanto são consumidos, os biscoitos servem de ilustração para os argumentos de Laurent: "Esse biscoito é feito por um artesão de Guérande. O sal é de Guérande. A manteiga, de Guérande. Ele não tem interesse em exportar, porque a durabilidade do biscoito é de 15 dias. E tem fila na porta da loja o ano inteiro".
O biscoito vira exemplo, também, para sustentar a tese segundo a qual a crise econômica mundial pode levar as pessoas a quererem se alimentar melhor, mesmo dispondo de menos dinheiro para comprar comida: "Comprar um pacotinho desses talvez seja a solução. Comer um a cada dois meses é melhor do que comprar vários de uma porcaria". A ideia é que o fim da euforia financeira provoque uma aproximação com produtos mais saudáveis, em menor quantidade e menos industrializados. "Você não serve cinco couverts como serve 5 mil. Não me venha contar história. Não tem produção industrial com a mesma qualidade do artesanato."

Os efeitos sobre a cultura alimentar são apenas um reflexo das muitas mudanças culturais que Laurent espera da crise. Como a ruína do glamour que cercou a profissão de banqueiro na era Gordon Gekko (vilão do filme Wall Street, interpretado por Michael Douglas). "Talvez voltem a colocar as coisas no ponteiro certo." Os jovens, elo mais fraco da corrente, são as primeiras vítimas da implosão de um mundo em que "se você trabalhar, é um otário. O negócio é manipular os números para ganhar". Mas também são os primeiros a abandonar as crenças ultrapassadas para tomar as rédeas da situação: "A nova geração está começando a entender o quanto um comportamento alimentar adequado é importante, como relação social e cultural para o equilíbrio e o bem-estar, tanto do indivíduo como da sociedade. Aliás, os dois conceitos estão voltando a ser indissociáveis. A felicidade não vem só do consumo".

No universo da gastronomia, o maior indício das mudanças próximas está no recente fenômeno dos chefs que renunciam às prestigiosas estrelas do Guia Michelin. Em fevereiro, foi Marc Veyrat, depois de Olivier Roellinger em 2008, Alain Westermann em 2006, Alain Senderens em 2005 e o pioneiro Joël Robuchon em 1996. "Existe algum mal-estar. São pessoas que chegam ao estrelato, mas gritam: 'Chega!'. Há um processo de transformação na gastronomia e no pensamento. Vale a pena acompanhar. Os próximos dez anos vão ser interessantes."

Em contraposição aos séculos de tradição do terroir francês, Laurent menciona a chegada relâmpago da alta gastronomia no Brasil, associada à noção de prazer e ao status. "Minha profissão é o metiê de cozinheiro, que poucos gostam de chamar assim. Só falam de chef. É triste, mas nós certamente chegaremos lá um dia: falar de cozinheiro sem ter vergonha." Nos últimos dez anos, a moda do avental branco e os novos cursos universitários no ramo atraíram a elite brasileira para a profissão. "A mídia associa a gastronomia ao glamour, como se fosse um setor que pertence à classe superior. O chef revelação precisa ter uma cara legal, de preferência vindo de uma família bacana, sobrenome estrangeiro... Ser bem relacionado conta mais do que a competência."

O esnobismo com que o brasileiro trata da alta gastronomia acaba ofuscando justamente as tradições da terra que poderiam ser a versão brasileira do terroir. Deslumbrados com pratos e cardápios sofisticados, corremos o risco de esquecer nossa "maior instituição gastronômica": o boteco. Na avaliação de um especialista inquestionável como Laurent, o caldinho de feijão do Jobi, no Leblon é extraordinário e não há prazer melhor do que se deliciar com bolinhos de bacalhau, croquetes e frango a passarinho.

Mas o conceito de pé-sujo não é tão simpático ao francês: "Na verdade, a gente poderia tentar melhorar os botecos...", ressalva. E emenda com o anúncio de um projeto para um futuro não tão distante: abrir um bistrô em Campos do Jordão para servir a comida na panela, com toalhas de plástico e guardanapos de papel. Simples, mas delicioso, preocupado apenas com o essencial. "Para as pessoas que querem comer bem sem se sentirem complexadas num determinado ambiente. Temos de mostrar o quão importante é a boa comida. Não é questão de etiqueta. Pode usar uma cadeira mais simples, mas que o produto seja rei e que venha satisfazer o cliente."

O modelo é inspirado em um restaurante de Dombes, ao pé dos Alpes, perto de Lyon. Levado por Roger Jaloux, seu antigo chefe no restaurante de Paul Bocuse, ele ficou maravilhado com as rãs fritas, servidas sem o menor vestígio de frescura. Apesar de localizado em região erma e pantanosa, a casa estava lotada. "Se o restaurante está cheio, é porque as pessoas estão querendo o produto verdadeiro, simples e benfeito... Nada mais."

Para ser um bom cozinheiro, insiste Laurent, só há um caminho. O rigor da formação é indispensável e incontornável. O maior fruto dessa convicção foi a abertura, em 2000, da Escola das Artes Culinárias Laurent, que formou chefs reconhecidos Brasil afora. Em 2004, ele sublinhou seus princípios com o livro Cartas a um jovem chef(Editora Alegro), em que narra sua trajetória e insiste na necessidade de trabalhar duro para crescer. Mais uma vez, o exemplo vem de Bocuse, que impunha à sua cozinha uma hierarquia e uma disciplina que beiravam o marcial: rigidez de horário, limpeza, organização.

Nada mais oposto a essa mentalidade do que o jeitinho brasileiro, que busca sempre a saída mais fácil para tudo e, depois de trinta anos, faz suspirar o professor francês. Ele não consegue se habituar à desordem: "Até hoje, é a minha maior dificuldade, o que mais me aborrece, ainda, nesse país. É a única coisa que, às vezes, me dá vontade de mandar tudo à merda e ir embora". O brasileiro, na avaliação do chef, tende a crer que pode fazer sucesso da noite para o dia e fica maravilhado com os raros casos em que isso acaba acontecendo - embora não costume durar muito. "Nossa obrigação é mostrar ao jovem que tem de fazer benfeito, mas, para isso, é preciso aprender e investir seu tempo. Não é mudar o cardápio de azul para vermelho que faz o cozinheiro bem-sucedido."

Sua crítica mais ácida é dirigida contra programas de televisão que, ao redor do mundo, fazem crer que podem ensinar a conduzir um restaurante com uma hora por semana de lições à distância. "Vi o vídeo de um chef que demonstrava a reação demayard (caramelização de proteínas) com um soldador e um maçarico. Puro marketing. Ele poderia ter usado uma frigideira ou uma grelha. O que esse cara quer? Não somos estrelas. O restaurante não é um teatro."

Só na "escola prática", diz o chef, é possível aprender a manejar os instrumentos. A cozinha, afinal, é uma arte do corpo. "É uma espécie de dança motivada pelo desejo de felicidade, pelo gosto de agradar. É muito mais fácil cozinhar para alguém de quem você gosta." Para alguns colegas que ele cita, mas não diz o nome, pouco importa quem é o cliente que receberá o prato. Não é o seu caso.

Com essa filosofia, chega a surpreender que Laurent tenha conseguido agradar o cliente brasileiro, que, na sua opinião, ainda tem dificuldade em lidar com os serviços e, muitas vezes, age de maneira arrogante. "O brasileiro odeia gente que responde. É o ranço da cultura de ter sempre empregada doméstica para tudo." Sem entender que um restaurante é uma empresa como todas as outras, o cliente muitas vezes trata prestadores de serviço como serviçais e quer que tudo seja apresentado segundo sua conveniência. Laurent ironiza: "Então eu vou entrar na sua empresa, vou bater na sua porta, vou colocar o pé na sua mesa, tomar o seu cafezinho, e depois vou-me embora, dizendo muito obrigado e pronto...".

Ele se lembra de quando parou de servir refrigerantes em seu restaurante de São Paulo e a imprensa publicou um artigo dizendo que "o chef pirou...". Um cliente, irritado, chegou a bradar que poderia comprar o restaurante inteiro, emendando como o tradicional: "Você sabe quem eu sou?". Ouviu como resposta: "Pode mesmo comprar tudo, menos uma coisa - eu".

Os desentendimentos com clientes brasileiros são um dos assuntos que mais divertem Laurent. Aos risos, ele conta de uma atriz global que lamentou a ausência de diet Coke, argumentando que era diabética. Sem se deixar abalar, ele replicou que a cafeína é tão negativa quanto o açúcar para uma pessoa diabética. Se a questão fosse água com bolinhas, ele poderia lhe oferecer uma garrafa de Perrier. "Ela não voltou mais. Ficava hospedada na frente do restaurante e adorava o nhoque de milho verde. Ligava para o maître pedindo o nhoque, mas que ele não dissesse para quem era... Esse chato desse francês!"

Quem frequentava o restaurante homônimo de Laurent tinha de sair de casa disposto a ouvir respostas espirituosas, mesmo que o dono não estivesse presente. Seus olhos brilham ao se lembrar de um episódio ocorrido com Paulo Maluf em meados da década de 1990: "Ele trouxe seu próprio vinho porque sabia que eu não teria uma garrafa tão cara na minha adega. E não tinha, mesmo. Ele queria abrir a própria garrafa, então perguntou ao meu sommelier: 'posso tomar o seu lugar?'. Então, meusommelier foi extremamente perspicaz e respondeu assim: 'Certamente, dr. Paulo. É muito mais fácil o senhor tomar o meu lugar do que eu tomar o seu'. Achei extraordinário!"

Atrás das panelas, o francês filho de sindicalista acompanhou momentos decisivos da história de seu país de adoção, sempre com o olhar observador de alguém que vem de fora. Preparou o jantar entre Fernando Collor e Roberto Marinho antes das eleições de 1989, em que o poderoso patriarca das Organizações Globo deixou o futuro presidente esperando à entrada, com toda paciência. Em 1985, uma televisão foi instalada na cozinha para que os cozinheiros do Saint Honoré pudessem acompanhar o enterro de Tancredo Neves, apesar dos protestos da direção do hotel.

Entre os estrangeiros, a lembrança mais marcante foi a visita de François Mitterrand ao Rio de Janeiro em 1985. O presidente socialista da França dominava como ninguém a arte de valorizar a própria imagem. Mandou desligar o ar-condicionado do restaurante lotado de empresários e políticos brasileiros, atrasou-se meia hora para o almoço e chegou imponente e impávido, perante os convivas derretidos em suor. Ao final da refeição, presenteou o chef compatriota com um elogio e uma caneta, na qual estava gravado o brasão que o presidente havia inventado para si próprio.

O brasão acabou atribuindo ao pequeno objeto um valor que Mitterrand dificilmente imaginaria. Serviu para reatiçar a discussão política na família Suaudeau. Laurent repassou o presente para seu pai, comentando: "Então é isso o seu socialismo?".

Na verdade, a reconciliação do sindicalista com o cozinheiro já havia acontecido. Atingido por um derrame, pouco antes da mudança de país de Laurent, o pai ficou com os movimentos do corpo prejudicados, e só foi visitar o filho no Rio de Janeiro uma vez, em 1981. O período coincidiu com uma das visitas de Paul Bocuse, que assinava o cardápio do Saint Honoré e fazia questão de conferir ao menos quatro vezes por ano como as coisas andavam em suas filiais. Laurent, aos 24 anos, conhecedor da personalidade crítica do pai, temia o que pudesse acontecer quando os dois senhores se encontrassem. No alto do hotel Le Méridien, tendo por fundo a vista do mar de Copacabana, eles não trocaram palavra. Depois, pai e professor se abraçaram e choraram. André Suaudeau viveu até 1996.

A conversa parisiense se interrompe por alguns instantes e, em seguida, envereda por comparações entre a França e o Brasil, prática comum em pessoas que vivem divididas entre nações. A diferença entre os dois países que atinge mais diretamente a família do chef é a forma de acolher os estrangeiros. Seu avô, ele se recorda, jamais se sentiu francês e só pediu a nacionalidade em 1965, oito anos antes de morrer. Já Sissi, muitos anos mais tarde, só obteve a documentação francesa quando ele soltou os cachorros contra o consulado:

"Se o problema é nacionalidade, eu devolvo meu passaporte e vou pedir a documentação irlandesa. Só quero que saibam que meu pai era líder sindicalista, defendeu a indústria francesa. Meu avô foi preso pelos nazistas. Eu sirvo a gastronomia francesa, representando o maior chef do país (Paul Bocuse, na época). E estão questionando a nacionalidade?"

O Brasil, ao contrário, é um país que acolhe o estrangeiro e o assimila com muita facilidade. Laurent sabe bem o que é o conceito de antropofagia, ele que é uma espécie de bispo Sardinha bem-sucedido. O sucesso de sua cozinha se deve ao fato de entrelaçar o brasileiro e o francês, em uma feliz antecipação do que viria a ser o fusion, com a ressalva: "Fusion, não confusion".

Ao mesmo tempo, o chef ainda vê no modus operandi da política brasileira um empecilho para o desenvolvimento do país. Na França, ele tem prazer em assistir a programas de debates políticos na televisão, onde líderes sindicais - como seu pai - expressam livremente suas ideias, argumentam com autoridade e ouvem respostas no mesmo tom, sempre com respeito à opinião alheia e ao direito de torná-las públicas. No Brasil, o debate ainda não atingiu esse grau de maturidade, possível resquício dos tempos de ditadura. "A expressão não é tão livre. Essas coisas são muito bem administradas e manipuladas ainda, para que não se faça barulho demais. Não acabou aquele 'vá com calma, hein!' do tempo da censura."

No futuro que Laurent vislumbra, a capacidade de misturar influências e culturas, isto é, ser fusion na sociedade como um todo, tanto quanto na cozinha, vai ser fundamental para a sobrevivência de todos os países. A França, que recebe imigrantes de todos os continentes, mas não consegue integrá-los nem aceitá-los, terá de aprender. Já o Brasil, apesar de naturalmente inclinado a abrir os braços para a diferença, precisará lidar com ela dentro de sua própria sociedade.

Laurent se prepara para aproveitar as últimas horas de sol para passear por Paris, seu maior prazer na cidade que considera a mais linda do mundo. "Que me perdoem os ingleses, mas o Buckingham Palace..." Na capital francesa, ele jamais vai ao teatro ou ao cinema, porque caminhar pelas ruas e observar a arquitetura é mais agradável. Reclama que não pode caminhar assim em São Paulo, com as ruas esburacadas e o desrespeito ao pedestre. "A gente paga tanto IPTU... O que esses caras fazem?"

Mal se levanta, porém, o chef toma nas mãos um dos livros que está lendo. Há tempo para uma última tirada irônica: "Quantos chefs no Brasil vão comprar um livro do Jacques Attali ou sobre a Revolução Francesa? Estão mais para revista Caras". De repente, o português é obrigado a ceder a vez em definitivo ao francês, que flui em uma torrente apaixonada. Ele está comentando passagens da obra, criticando eventos da revolução e ironizando a política de seu país. A tarde de feriado já está no fim e seu passeio por Paris terá de ficar para outro dia.

OS MORTOS-VIVOS # 4 - DESEJOS CARNAIS

OS MORTOS-VIVOS # 4 - DESEJOS CARNAIS

OS MORTOS-VIVOS # 4 – DESEJOS CARNAISTítulo: OS MORTOS-VIVOS # 4 - DESEJOS CARNAIS (HQM Editora) - Edição especial

Autor: Robert Kirkman (roteiro), Charlie Adlard (arte) e Cliff Rathburn (tons de cinza).

Preço: R$ 32,90

Número de páginas: 144

Data de lançamento: Outubro de 2009

Sinopse: O mundo como conhecemos acabou. O planeta está infestado de zumbis e os humanos sobreviventes precisam encontrar lugares seguros.

O grupo liderado por Rick Grimes tenta se manter seguro dentro de uma prisão. Mas nem só os mortos-vivos são as ameaças.

Positivo/Negativo: Os mortos-vivos é sempre uma ótima leitura.

Esta série é o melhor trabalho do roteirista Robert Kirkman, que também é autor de Zumbis Marvel e Invencível.

A trama continua exatamente do mesmo ponto em que se encerrou Os mortos-vivos # 3. E isso quer dizer que começa com a emoção em alta, pois Kirkman costuma encerrar as edições da série com grandes ganchos para os próximos acontecimentos.

Como se tem feito habitualmente nos melhores filmes de zumbi, Os mortos-vivos é menos sobre mutilações e carne humana devorada, e muito mais sobre como os seres humanos reagem em momentos de grande tensão e terror.

Não há personagens inocentes. Mesmo Rick Grimes, que encarna o "mocinho" da história, toma muitas atitudes questionáveis.

Kirkman não enuncia a metáfora, faz os personagens a viverem - um bom exemplo está na sacada do final da edição.

E quando o leitor decifra essa metáfora, o terror é ainda maior, pois percebe que não é necessário um cadáver faminto no corredor para que um ser humano tome aquela decisão. Os mortos-vivos é uma série sobre os limites e a ética humana.

A arte de Charlie Adlard dá conta de manter a tensão e a narrativa. Seu traço não tem nada de muito destaque, mas é competente na diagramação dos quadros e nas expressões faciais.

É quase irônico saber que a HQM dá sinais de vida com uma história de desmortos. A editora faz um trabalho competente, a um preço honesto, mas dá suas escorregadas. Como a logotipia da série em baixa resolução logo na primeira página do álbum.

E, é claro, a irregularidade do lançamento - este álbum foi anunciado para maio de 2009 e só saiu agora. O leitor não sabe quanto tempo levará para ser lançado o próximo encadernado.

Elogie-se, porém, a presença de todas as capas originais ao final do volume, bem como o posfácio do jornalista Télio Navega. Pequenos detalhes que enriquecem um material que vale a pena ser lido e colecionado.

Classificação: - Lielson Zeni

O que que mudou?

O que que mudou?
Gente, estou trabalhando nas transcrição de atas secretas da ditadura, especificamente em uma que está caçando os direitos políticos de certos deputados corruptos da época e também com idéias comunistas e subversivas. Eu vou postar um trecho da ata secreta e uma reportagem atual para vocês darem uma comparada no que que mudou...

Em 1969

Passemos agora ao Estado da Bahia com MARCELO FERREIRA DUARTE GUIMARÃES, Deputado Estadual
pelo MDB.-------------------------------------------------------------------------...............................................................................
SECRETARIO-GERAL DO CONSELHO
DE SEGURANÇA* NACIONAL - Relatório de Investigação Sumária - IV Ex
Em 5 Fev 69 - O Deputado MARCELO DUARTE ,




[Carimbo - secreto]
70

já desde a sua juventude, quando ainda estudante de Direito era um simpatizante
das idéias marxista-leninistas, quando no "O MOMENTO" de 3 Jan 51, assinou o mani
festo em que reconhecia o direito de PRESTES expor e debater livremente suas i
déias. Acrescentando ainda que e preferível ser o Partido Comunista uma institui-
ção legalizada, evitando a sua atuação clandestina. - Faz graves acusações aos
dois Govêrnos revolucionários, taxando-os como anti-democraticos e a serviço dos
grupos estrangeiros. - Disse em um discurso na Assembléia (17 Set 68), que as Fôr
ças Armadas, se instalaram, pela primeira vez em nossa História, no Poder, arvo
rando-se à condição de tutores da nacionalidade brasileira, e, o fizeram em nome
de uma doutrina de segurança nacional, que nao faz outra coisa, que atrelar os in
terêsses nacionais aos interêsses estrangeiros, principalmente norte-americanos .
Declara ainda em outro discurso de 17 de novembro de 1968,que os Govêrnos que tí
nhamos ate então eram estranhos ao povo, mas que os de 1964 para cá, não são es
tranhos ao povo, são desgraçadamente estrangeiros. Diz mais ainda, em seu discur
so de 6 de setembro de 1968, que o "golpe de 64, ficara na História de nossa Pá
tria, como uma das manchas mais negras, pelo que há de subserviência, de entreguis
mo, de servilismo aos interêsses estrangeiros". - Declarou no seu discurso de 1°
de outubro de 1968, que "se estivesse ao meu alcance entregar a púrpura cardinali
cia a alguém ou a algum dentre estes tão eminentes prelados, eu, induvidosamente o
faria a Dom HÉÊLDER CÂMARA, por ver nele a figura mais exponencial do clero latino-
americano, e não apenas do clero brasileiro, o qual se alinha, conforme aqui vimos
nas fileiras de renovação da Igreja, inclusive no particular da luta dos povos sub
desenvolvidos para se liberarem do neo-colonialismo. Como também estamos empenha
dos nesta luta, sentimos que a expressão mais eloqüente desta posição da Igreja
no Brasil, é, sem dúvida, Dom HÉLDER CÂMARA". - Pelos seus discursos na Assem
bléia Legislativa, pelo seu depoimento, e por contradições verificadas entre aquê-
les e este, nota-se, perfeitamente que o Deputado MARCELO DUARTE, defende a sua
ideologia evidenciando-se como um elemento atuante de extrema esquerda, pois os
seus atos têm sido coerentes desde a sua juventude, como estudante universitário
até a sua ação como parlamentar na Assembléia do Estado, É um intransigente acusa-
dor do movimento revolucionário de 31 de março de 1964, que o considerou como um
golpe traiçoeiro contra o sistema democrático brasileiro, contra o povo e as insti
tuições, e principalmente por caracterizar um Govêrno a serviço do imperialismo a
mericano. É um deputado que se notabiliza por grande atividade parlamentar, eviden
ciada por uma gama de discursos que comprovam a sua capacidade intelectual e os
seus conhecimentos jurídicos e principalmente como professor de Direito da Faculda
de de Direito da Bahia. Entretanto, observa-se que o seu trabalho legislativo e mo
bilizado quase exclusivamente no sentido de atacar o sistema político atual, criti
cando de maneira impiedosa todos os atos do Govêrno que visem impedir o processo
de desenvolvimento e expansão das idéias de extrema-esquerda. Pouco ou quase nada
de objetivo tem realizado em prol do povo e das instituições, sua ação parlamen-






[Carimbo - secreto]
71

tar e de uma verbosidade sem objetividade construtiva. Ao lhe ser perguntado se
apresentou algum projeto que visasse o bem-estar da coletividade, respondeu que ,
apoiou o Govêrno naquilo que julgou ser de interêsse do povo. - A copiosa documen
tação anexa poderá comprovar o trabalho e a vida do Deputado MARCELO, traçando com
nitidez o seu perfil ideológico e as suas tendências esquerdistas. - Busca parti
cularmente, a "intimidação intelectual dos democratas" pela criação de um ambien
te desfavorável ao anticomunismo. Associa o anticomunismo ao chamado imperialismo
norte-americano, identificando-o como reacionário a muitas idéias que, como sabe
mos, na realidade, constituem inegàvelmente aspirações nacionais. - Como técnica
comunista, o Deputado se apresenta aos menos avisados parecer um democrata liberal
ou um nacionalista patriota, haja visto haver concentrado seus ataques utilizando
chavões de ha muito conhecidos como comunizantes. Entre muitos podemos citar o que
considera que a atual dependência política econômica do Brasil resulta fundamental
mente, das ligações espúrias entre os grupos estrangeiros e govêrno brasileiro. É
um agitador de rua dos mais veementes, caracterizando-se como um líder esquerdis-
ta de grande penetração no meio universitário face a comprovação de uma testemunha
cujo depoimento se encontra anexo, e que a muito acompanhava a sua participação nas
passeatas estudantis, sendo de fácil identificação face a um defeito físico que
apresenta em uma das mãos. É sem duvida um dos mentores do movimento estudantil ,
fornecendo-lhe o respaldo necessário para que êle prolifere e atinja as propor -
ções que alcançou aqui em Salvador, - Procurou imprimir um sentido extra parlamen
tar de atividades conjuntas com operários, estudantes durante as comemorações de
19 de maio, sem contudo, segundo declara atingir aos fins propostos. - Realiza a
pressão pacífica dentro e fora da Assembléia apoiando a corrente que de diz na
cionalista e progressista. - Proclama alto e a bom som a completa libertação eco
nômica e política da dependência em relação ao imperialismo norte-americano e pa
ra tanto faz graves acusações a Revolução, tachando-a de entreguista e lesiva aos
interêsses nacionais, representados na pessoa do ex-Presidente CASTELO BRANCO.- U
sa conceitos verdadeiros, empregando uma técnica diabólica, difícil de neutrali -
zar, pois apoia-se, essencialmente, na conquista de simpatizantes por idéias ge
ralmente bem aceitas, caracterizando-se assim, em face da indiferença da maioria
democrática, a liderança de uma minoria atuante e comunizante. - Através de seus
discursos, às vêzes apressenta uma visão deformada dos acontecimentos e dos fa
tos para desprestigiar as instituições nacionais, desmoralizar os poderes, gerar
a desconfiança e inquietação, insuflar o descontentamento e incentivar a rebelião
Desvia-se de suas finalidades precípuas e democráticas conduzindo o debate para o
caminho da subversão política e da desordem. Todas as suas ações, se examinadas i
soladamente, desvinculadas do ambiente geral, poderão aparentar uma natureza des
tituída de importância subversiva. É preciso, entretanto desmarcarar-lhe os inten
tos ocultos e desencorajar-lhes a prática criminosa, impedindo que a liberdade de
mocrática da construção e do progresso seja realizada para a destruição e o re
trocesso. Ofício n° 36-CAI, Cmt IV Ex. Em 5 Fev 69 - Baseado em Relatório de In





[Carimbo - secreto]
72

vestigação Sumária o Comandante do IV Exército julga que o Deputado MARCELO DUAR
TE GUIMARÃES deve ser enquadrado no Ato Institucional n° 5, de 13 de dezembro de
1968 e ter seu mandato cassado, seus direitos políticos suspensos, bem como, ser
demitido do cargo de professor da UFB. MANIFESTO, de 14 Out 66 - Cuja autoria lhe
é atribuída. "POR QUE OS ESTUDANTES BRASILEIROS DEVEM VOLTAR ÀS RUAS? Causou gran
de impacto aos estudantes baianos o conteúdo do manifesto divulgado pela UEB ( 3
Out 66), em que esta entidade procura justificar a recente mudança de posição da
UNE, com relação às manifestações estudantis em todo o País. Isto porque, no mo
mento em que as grandes massas estudantis se empenham firmemente na mais compacta
luta, nacionalmente travada, de desmascaramento da Ditadura de CASTELO BRANCO,que
humilha e esmaga os brasileiros, a União Nacional dos Estudantes se afasta do pá
reo, alegando que as manifestações estudantis "estariam criando um clima favorá -
vel ao golpe... encabeçado por LACERDA e pela jovem oficialidade fascista das Fôr
ças Armadas". Se nos permitem os companheiros da UNE e da UEB, argumentos como ês
tes com que vocês procuram justificar a suspensão das manifestações estudantis são
destituídos de qualquer fundamento. Porque, companheiros, em primeiro lugar, um re
cuo desta espécie arrefece o espírito de luta dos estudantes, levando-os a acredi
tar que suas lideranças enveredam por caminhos oportunistas, recuando com mêdo da
luta de massa. Em segundo plano, a afirmação de que pairava o perigo de um golpe
fascista avança o jocoso perante os estudantes, porque parece ignorar que o golpe
fascista já foi desfechado no Brasil com a quartelada de abril de 1964. E ficacla
ro que os companheiros se colocam numa opção entre LACERDA e CASTELO, quando nao
existe diferença alguma entre êsses dois desprezíveis verdugos do imperialismo. Gol
pe fascista "sui generis" foi o golpe de 1° de abril, que atrelou o nosso País aos
sinistros designios do imperialismo norte-americano, enquanto internamente sufoca
e oprime os brasileiros. Já poucos duvidam de que vivemos sob o pior tipo de dita
dura: enquanto êsse govêrno lacaio executa as mais intoleráveis arbitrariedades ,
contra os anseios de nosso povo, procura mascarar-se debaixo de tôda espécie de
farsa e mentiras, como ocorre com o deboche eleitoral. A ditadura insiste em dar
ao povo a ilusão de que vive num "regime democrático", enquanto, por outro lado ,
continua tomando medidas profundamente reacionárias e antipopulares - que só favo
recem as minorias privilegiadas vinculadas aos monopólios internacionais. E não
estamos dizendo nenhuma novidade. Por isto, caros companheiros da UNE e da UEB,vo
cês não podem e não devem concorrer para um infeliz e desastroso recuo dos estudan
tes nesta luta histórica de desmascaramento da Ditadura. Nos dias atuais, nem se
pode "parar para pensar". Deve-se aprender a PENSAR LUTANDO, pois é na luta que
se aprende a pensar. Mesmo porque, companheiros da UNE e da UEB, vocês não podem
assegurar que LACERDA deixará de dar seu golpe pelo fato de os estudantes abando
narem as ruas - e outra possível quartelada será tanto pior se encontrar os estu
dantes e as massas desprevenidas. Qualquer recuo do movimento estudantil será to
mado pelos estudantes como sinal de incapacidade das lideranças e só aproveita aos





[Carimbo - secreto]
73

inimigos do povo brasileiro que - animados por êsses recuos - mais e mais intensi
ficarão suas investidas contra os interêsses nacionais e contra os estudantes. A
luta estudantil e nosso País no momento se reveste de imenso significado para os
trabalhadores brasileiros que - com seus instrumentos de luta legal destroçados
pelo golpe de abril (sindicatos, confederações, CGT, etc.) - ainda se encontram
na defensiva. E é a luta estudantil que, demonstrando de fato ser possível enfren
tar os "atos" e cacetetes da ditadura, levanta o moral das classes oprimidas e a
juda-as a colocar-se na ofensiva, mostrando ao povo o verdadeiro caminho de sua li
bertação. O problema fundamental do momento é ORGANIZAÇÃO. E com o estímulo da lu
ta dos estudantes, os trabalhadores mais cedo poderão organizar-se - Dentro e fo
ra dos Sindicatos - onde de fato travarão a luta decisiva pela libertação nacio -
nal. Dêste modo, companheiros da UNE e da UEB, as massas estudantis precisam e de
vem prosseguir na luta. Não podem e não devem recuar de espécie alguma no momento.
Seu lugar de honra é nas ruas juntamente com os trabalhadores. Se por acaso seus
líderes atuais recuarem frente à Ditadura, passarão para a retaguarda, porque no
processo de luta surgirão novas lideranças, que não recuarão diante dos momentos
mais difíceis que virão. Os estudantes brasileiros querem e devem voltar as ruas-
e imediatamente - para protestarem contra a "universidade paga" e contra as dis
criminações e violências da ditadura, que arrasta o Páis ao obscurantismo. Abaixo
a Ditadura! O Recuo das Lideranças é Traição ao Movimento Estudantil". Informação
n° 246/CENIMAR. Em 6 Mar 69 - Desde os tempos de estudante tem demonstrado clara
tendência comunista. - Assinou vários manifestos esquerdistas como seja: de apoio
à reunião do Conselho Nacional do Movimento Brasileiro dos Partidários da Paz;dos
estudantes de Direito em defesa de PRESTES; de apoio ao registro do PCB; dos inte
lectuais baianos contra as violências policiais durante à repressão às manifesta-
ções estudantis na Guanabara e outros Estados. - Preso durante a Revolução e afas
tado do cargo de Procurador-Geral da Justiça do Estado - atividades subversivas .
- Ligado a "Ação Popular". - Preso em decorrência da promulgação do AI-5. Extrato
de Prontuário do SNI. Em 1965 - Foi indiciado no IPM (setor de ensino) realizado
na cidade de Salvador/BA. Em 1968 - Foi elemento atuante nas manifestações de rua,
em Salvador, insuflando estudantes, durante os episódios decorrentes da morte de
EDSON LUIZ; na Guanabara. - Fêz repetidos pronunciamentos, anunciando que o "MDB
lançará uma campanha de âmbito nacional poupando a PETROBRÁS da ameaça de extinção’!
- Participou da chamada Comissão de Mobilização Popular do MDB/BA. - Apresentou
veemente protesto contra a condecoração que o Govêrno Brasileiro ia conceder ao
General Americano WESTMORELAND. Afirmou que, caso isso acontecesse, seria uma a
fronta à memória de CAXIAS, tal concessão. Em 1969 - Pronunciou-se contra a cassa
ção do Deputado MÁRCIO MOREIRA ALVES (Deputado Federal MDB/GB). - Comunista ficha
do. - Altamente subversivo. - Apoiou e insuflou os estudantes nas manifestações
de rua, em Salvador. - Fêz inúmeros pronunciamentos contrários aos postulados da
Revolução de março de 1964. Trecho da Carta do Cmt da 6a RM. Considera-o como co
munista e incitador de estudantes para a baderna.


Em 2009

Sede de organização anarquista no Sul do Brasil é invadida pela polícia

[A sede da Federação Anarquista Gaúcha (FAG) foi invadida por dezenas de policiais ontem (29), por volta das 16 horas. A ação policial, sob um mandado de busca e captura, visava recolher material de propaganda contra a governadora do Rio Grande do Sul Yeda Crusius, que decidiu mover uma ação por injúria, calúnia e difamação contra ativistas da organização anarquista. No local da FAG, na rua Lopo Gonçalves, Cidade Baixa, os policiais apreenderam vários materiais de propaganda, documentos e um computador. Integrantes da FAG prestaram depoimentos na 17ª Delegacia Policial e foram liberados. A governadora do Rio Grande do Sul é acusada de estar envolvida em uma série de escândalos de corrupção que atingiu o seu governo e resultou no afastamento de quatro secretários estaduais. Contudo, no dia 20 de outubro, a Assembléia Legislativa gaúcha aprovou relatório de comissão especial que propôs arquivar processo de impeachment contra a governadora. A seguir três comunicados públicos da FAG.]

1º Comunicado

Neste exato momento ? quinta-feira, 29 de outubro de 2009, a partir das 16 horas - a Polícia Civil do RS sob o comando da governadora Yeda Crusius promove diligência na sede da Federação Anarquista Gaúcha (FAG). O mandado de segurança do governo busca apreender material de propaganda política contra o governo acusado de corrupção. Os cartazes abordam o empréstimo junto ao Banco Mundial e o assassinato do sem-terra Eltom Brum. Este ato é pura provocação do Executivo gaúcho, atravessado por atos de corrupção e situações até hoje sem explicação, como a morte de Marcelo Cavalcante em fevereiro desse ano. Convocamos as forças vivas da esquerda gaúcha para reagirmos de forma unificada contra mais esse desmando.

Solidariamente,

Federação Anarquista Gaúcha (FAG)

2º Comunicado

Material de propaganda e CPU da FAG apreendidos

Nesse momento, quinta-feira, 29 de outubro, 2009, às 17h31, temos compas respondendo na 17ª DP, localizada na rua Voluntários da Pátria, 1500, perto da Rodoviária de Porto Alegre. A Polícia Civil apreendeu material impresso, chapas de cartazes e inclusive a CPU do computador da sede. Isso se trata de uma conspiração oficial para atacar uma das forças da esquerda não parlamentar e com base social real no RS!

Era de se esperar uma reação como essa, em função da FAG sempre haver atuado com modéstia mas tenacidade, sendo das mais aguerridas em todas as circunstâncias na defesa dos interesses e objetivos estratégicos do povo gaúcho. Vamos fazer uma denúncia pública e provar para as classes oprimidas do RS a natureza desse ataque vil sob ordem de um governo acusado dos mais graves crimes.

Não tá morto quem peleia!
Federação Anarquista Gaúcha (FAG)
3º Comunicado

Toda a solidariedade para com a FAG! Antes a repressão foi contra o sem terra Eltom, hoje é na sede da FAG, amanhã quem será?

A repressão do governo Yeda foi além do esperado. Dois compas foram processados e responderam a processo de parte de um governo acusado de dezenas de crimes, e alvo de investigações federais em seqüência. Até a repressão do Estado liberal-burguês vê a esta gestão como alegando investigar uma propaganda contra a sua gestão, a polícia civil do RS apreendeu documentos internos da Federação Anarquista Gaúcha, intimou aqueles que mesmo prestando apenas a sua solidariedade constavam de registros da página de internet da organização. Não bastasse a apreensão da CPU e do backup do computador, levaram documentos internos (como ata de reuniões), material de propaganda público e até os resíduos que estavam na lixeira da sede.

Imediatamente a solidariedade de classe se fez notar, repercutindo no Rio Grande do Sul, por todo o Brasil, na América Latina e, a partir da Espanha, por organizações anarquistas e movimentos populares de todo o mundo.

Pedimos a solidariedade de companheiras e companheiros para difundirem e
traduzirem esta três notas em seqüência.

Solidariamente,

Federação Anarquista Gaúcha (FAG)