O que chamamos de realidade é na verdade uma descrição, uma construção da linguagem e da percepção.
Quero dizer, a realidade não é constituída de partículas atômicas e sim construída a partir da linguagem e das percepções. Todas evidências científicas tratam-se na verdade da percepção das manifestações da dinâmica da realidade. Essas evidências traduzidas e articuladas numa linguagem constróem uma descrição, que acaba sendo tida como realidade em si. Quer dizer, a realidade é apenas descrita como constituída de partículas.
Perceber e traduzir a realidade de seu silêncio para uma linguagem é criá-la. A dinâmica da realidade até possui alguns padrões de comportamento, esses sim bem estudados pelos físicos, mas ela, a realidade, é e sempre será uma desconhecida do intelecto. Uma figura do zen budismo trata a realidade como a lua, enquanto suas manifestações são como o reflexo desta lua na água. Enxergar este reflexo nos permite saber que a lua existe, mas não significa vê-la de fato.
Essa diferença "realidade versus descrição de realidade ¿ pode parecer insignificante e óbvia, mas quase nunca é levada em consideração no momento de afirmarmos que algo é ou não real. Essa diferença nos leva a perceber que nossa comunicação via signos é extremamente limitada e a realidade é bem mais ampla do que nosso intelecto pode conceber.
Existem muitas e muitas descrições de realidade, assim como existem muitas e muitas maneiras de ver e interpretá-la.
As percepções que formam o conhecimento acerca da realidade dos indivíduos podem ser despertadas por duas maneiras: impressão e condicionamento: Impressão é a percepção da coisa em si. É aprender que não se deve colocar a mão no fogo porque o fogo queima. Esta é a mais sublime forma de aprender em contraposição ao condicionamento, que é um conhecimento burro. Aquilo que é compreendido por condicionamento não tem as percepções orbitando em torno do tema central do conhecimento e sim dos mecanismos de ato e recompensa. É aprender que não se deve colocar a mão no fogo, não porque ele queima, mas porque fulano falou. Aprendizado por condicionamento é uma maneira baixa e rude de aprender. É a maneira dos cães adestrados, dos ratos de laboratório. É o aprendizado dos submissos, dos idólatras, dos macacos imitadores.
Percepção é liberdade, condicionamento é imposição. E por aí, muito se fala de que só aprendemos por imitação. Pois discordo. Aprendemos por percepção, seja do tema do aprendizado em si (impressão), ou dos mecanismos de ato x recompensa (condicionamento).
Como o leitor deve ter imaginado, essa maneira de aprender, por condicionamento, é a mais comum na sociedade em que vivemos, onde temos escolas que incentivam a sempre saber do já sabido, bitolar em livros e idéias pré-concebidas ao invés de incentivar a impressão, o despertar do conhecimento incubado. Essa sociedade forma aleijados da cabeça, que não conseguem pensar sem muletas conceituais.
A necessidade humana de viver em grupos (já que assim aumentamos nossas chances de sobrevivência ante a natureza maravilhosa e cruel da qual fazemos parte), torna necessária a existência de realidades consensuais, isso é, percepções, significados e valores compartilhados por um bando.
Por um lado podemos até pensar que o que acontece é que os fatos são percebidos pelos indivíduos e estes formam realidades individuais que, movidas pela necessidade da sobrevivência de seu portador (o indivíduo), somam-se às realidades de seus semelhantes e desta maneira são formadas as realidades consensuais, ou sociedades. Por outro lado, o que parece na prática é que são as realidades consensuais que modelam e determinam as realidades individuais, influenciando os indivíduos em todo seu crescimento e processo de aquisição cultural, que na maioria das vezes trata-se de uma imposição, um condicionamento.
Mas no final das contas o que de fato acontece não é nem indivíduos que formam sociedades e nem sociedades que formam indivíduos, mas as duas coisas, em tempos diferentes. Quero dizer, se num primeiro momento uma realidade consensual é formada a partir de realidades individuais, quando esta realidade consensual está estabelecida e estável, ela passa a formar realidades individuais, e para uma realidade individual sobreviver num estágio como este ela deve ser mais ampla que a realidade consensual, para poder contê-la em si. Quero dizer, a realidade individual deve ser maior que a realidade consensual, de maneira que esta última seja apenas uma sub-realidade necessária à sobrevivência.
Neste ponto pode-se dizer ainda que ideologias - que é como chamarei as descrições de realidade a partir de agora - não se excluem mutuamente, isso é: não é porque um indivíduo enxerga sob a ótica de uma ideologia que não pode enxergar sob a ótica de outra também. Na verdade temos muitas camadas de ideologias que se interpenetram e formam algo que até arrisco em chamar de consciência. O indivíduo não é produto da coletividade, nem a coletividade é produto do indivíduo. Ambos se constróem, cada um a seu modo.
* * *
Foi definido que:
1) realidade é descrição;
2) existem muitas e muitas descrições de realidade;
3) realidades consensuais nascem a partir da necessidade humana de sobrevivência.
Agora, com isso fundamentado, falarei de dominação:
Para falar sobre dominação é necessário fazer uma distinção entre termos: enquanto defino poder como a capacidade natural que temos de realizar uma vontade, considero a dominação como o poder exercido sobre algum meio. Acontece que num nível social, a dominação gera ressentimento, gera divisões, classes, e numa sociedade dividida entre classes dominantes e classes dominadas é muito difícil de haver paz.
Outra distinção que pode esclarecer o que quero dizer é entre sociedade e Estado: sociedade é uma realidade consensual, uma organização de bando para fins de sobrevivência de seus indivíduos. Estado, por outro lado, é o domínio de um ou poucos indivíduos sobre uma sociedade. Quer dizer, sociedade não envolve idéias de dominação, mas Estado sim.
propósito
Existe uma ideologia desgraçada aí fora. Uma ideologia que prende os indivíduos às formas que já existem e os impede de realizar seus verdadeiros potenciais. Uma ideologia cheia de discursos e valores malignos, cheia de ídolos e estereótipos com que as pessoas devem se identificar para ser alguma coisa. E segundo essa ideologia, deve-se sempre ser alguma coisa e estar sob um rótulo ou classificação que não represente ameaça para a ordem vigente.
Essa ideologia, além de endeusar a grana e degradar a natureza, é altamente defensiva e reprime tudo aquilo que possa ameaçar sua integridade; ela têm uma série de discursos aparentemente atraentes, cuja essência é causa de muito sofrimento aos seres; e com o advento da mídia de massas, tais discursos puderam tornar-se ainda mais pegajosos e populares, complicando assim a vida daqueles que não se satisfazem com as ilusões que esse sistema tem a oferecer.
Essa ideologia pertence a ordem vigente, sob o domínio de gente muito ruim que não se importa em causar sofrimento nem à própria mãe se isso ameaçar seu poder. Dizem que é o próprio Satanás o senhor desta ordem.
Este sistema, através da mídia de massas, vive a criar e modificar a realidade de acordo com seus interesses. Com seu forte apelo estético, além de produzir uma geração vaidosa, egoísta, desespiritualizada e acomodada, manipula os significados de tudo aquilo que represente ameaça. Mas, é claro, isso não é uma condição obrigatória. Esse sistema só cria a realidade daqueles que compartilham de sua ideologia, mas atualmente, com a abundância de informações, é bem possível desvincular-se desta ideologia e iniciar uma verdadeira subversão de valores, desde que se saiba direcionar a atenção para aquilo que é realmente importante.
Sendo assim, o propósito deste trabalho é oferecer informações relevantes para uma mudança de perspectiva quanto a vida e a realidade. É fortalecer a noção de que apesar de uma modificação nas estruturas da sociedade ser necessária, é urgente que se faça uma mudança de mentalidade entre os indivíduos, principalmente aqueles que se dizem insatisfeitos com o sistema e têm a pretensão de mudá-lo. Pelo que vejo, antes de acontecer uma revolução material, é necessária uma revolução intelectual. É necessário que se aprenda a perceber ao invés de imitar.
estilo
Este trabalho, assim como outros que já produzi ou estou produzindo, possui um estilo fragmentado, aparentemente desorganizado, cheio de bifurcações. Essa carecterística caótica se deve em primeiro lugar ao fato de que não me limito numa única maneira de escrever e nem permaneço focado em um único assunto, e em segundo lugar ao fato de que o caos transcende contradições, não defende teses e prefere o andar cambaleante dos bêbados ao andar rígido dos executivos.
Quer dizer... na verdade isso tudo é apenas uma descupa para justificar uma deficiência literária, uma falta de habilidade com as palavras. Mas deixa pra lá. Isso não importa. O que importa é que, como Nietzche, quero tentar dizer em poucas frases o que sempre tentou-se dizer em muitos livros. Se vou conseguir eu não sei. Na verdade nem me importo.
ao leitor confuso
Muitas das coisas que falei podem não pertencer ao repertório do leitor, o que torna a leitura difícil, cheia de idéias desconhecidas. Se o leitor não entendeu nada do que quis dizer, peço um pouco de paciência. Não escrevo, gaguejo. Peço que me ouça um pouco mais e tentarei me explicar, conforme vou desenvolvendo este trabalho.
Caso o leitor queira se aprofundar nos temas aqui discutidos, procure conhecer o trabalho do biólogo Humberto Maturana, e das descobertas novas da física, linguística e toda rede intelectual que se forma a partir da física quântica, relativista e as ciências do caos. Foucalt também pode ser uma leitura nutritiva. Pesquise. Existem muitas redes intelectuais nos bastidores da realidade.

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