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O Estado de S. Paulo - SP (07/07/2007)
Agualusa recusa porto seguro do regionalismo
Angolano está na Flip divulgando seu livro mais recente, As Mulheres do Meu Pai
O escritor angolano José Eduardo Agualusa detesta ser tomado como um representante da África. Espera-se de um escritor africano, diz, que ele escreva sobre temas específicos (de preferência a miséria do continente) e Agualusa não suporta a idéia de ter sua literatura amarrada ao porto seguro do regionalismo. Lembra que Bruce Chatwin escreveu sobre a Patagônia e Ryszard Kapuscinski sobre a África sem que nenhum dos dois tivesse nascido ou passado suas vidas nesses lugares. Agualusa, por exemplo, está cada vez mais ligado ao Brasil por causa de sua editora Língua Geral, que tem feito muito para divulgar a literatura portuguesa contemporânea abaixo do Equador. Ele está na 5ª Festa Literária Internacional de Paraty para divulgar seu mais recente romance, As Mulheres de Meu Pai, planejado originalmente como roteiro para um filme.
Sobre a relação cada vez mais estreita entre a linguagem literária e a sintaxe cinematográfica, Agualusa observa que a produção de textos como base para obras audiovisuais está provocando conseqüências negativas para a literatura. “A maioria dos jovens não lê e essa influência do cinema não tem sido benéfica”, diz, lembrando que os melhores filmes são aqueles, que, de alguma forma, desrespeitam os livros. Há uma contaminação de uma linguagem pela outra sem resultados muito animadores para a literatura.
A mídia também ajuda a criar mitos literários que, segundo o escritor angolano, tira a visibilidade de escritores que precisariam ser mais lidos, como o português Antonio Lobo Antunes, considerado por Agualusa como superior ao Nobel José Saramago. Ele tem feito a sua parte. Promete para breve o lançamento, pela Língua Geral, do último livro do escritor angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, mais conhecido como Pepetela, uma das grandes vozes contra o colonialismo cultural e político na África. Outro nome que sua editora vai ajudar a divulgar no Brasil é o do português Francisco José Viegas, de quem pretende lançar A Luz do Índico.
Agualusa diz que Angola, em questões anticolonialistas, está bem melhor que o Brasil, que define como um país racista, onde o negro está pouco ou nada representado nas esferas do poder. “Também na educação as crianças angolanas contam com melhores escolas, o que garante a elas maiores chances no futuro sem precisar recorrer a um sistema de cotas”. A revolução social, diz Agualusa, passa pela educação, não pela raça. O sistema brasileiro de cotas para universitários negros, segundo ele, é um “contra-senso grave”, um erro que precisa ser corrigido com maior qualidade no ensino.
Irresponsabilidade, diz ele, é coisa para os escritores. “É preciso mesmo ter uma certa dose dela para escrever e às vezes fico um pouco assustado quando encontro algum leitor e ele me diz que meu livro mudou sua vida”. Agualusa diz que nunca pensou em sua literatura como veículo para a “grande arte”. Nem mesmo se imagina com autor do “grande” romance angolano, algo comparável ao de Guimarães Rosa. Considera também que os escritores brasileiros de origem árabe, como Milton Hatoum, tenham mais chances de ocupar esse lugar deixado vago por Rosa, “De qualquer modo, é difícil perceber a grande obra na hora que ela está sendo produzida”, acrescenta. “Havia uma enciclopédia publicada à época da morte de Fernando Pessoa que dedicava apenas três linhas para ele, reservando até uma página para escritores que, hoje, estão esquecidos”.
Fonte: Folha de São Paulo
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