
Noite. Noite, apenas mais uma noite. E um apetite insaciável. Pela vida da noite, por seus corpos tão estranhos e objetos e sons. Na minha janela uma tempestade. E no meu quarto apenas um corpo estendido na cama: o meu corpo. Retintas as luzes do amanhã. Apenas absorvo este som do silêncio, que é o vazio que comunica. Vazio? Onde estarão agora todas aquelas apologias que irão moldar o amanhã? Onde foram parar os filhos, os netos e os bisnetos da revolução? Aqui parado em minha mente, rememoro tantas tristezas e facas em mãos amigas. Daquelas que transformam seu bondoso coração num mar de sangue e ácido, um ácido leve que o corrompe com o passar dos segundos. Mais ódio, mais ódio... Será que eu preciso ganhar na loteria para ganhar o amor do mundo?
E o coração continua a bater, inexorável: mais ódio, mais ódio. Este corpo estendido na cama levanta-se e caminha até a delgada lâmina, examina aquele brilho estelar da faca. E coração ainda pulsa: mais ódio, mais ódio. Homem, do século XX, tem todo um novo século para conquistar, mas o que há para conquistar? Ele pensa consigo mesmo, que neste momento gostaria de ser um cirurgião e eliminar todo o ódio da carne lamacenta que o envolve. Que o envolve e flui em suas veias. Sente-se um feto do século envolvido por uma diabólica placenta, que tem de lutar contra a vida a todo o momento para poder viver. É isso uma vida? A paradoxos, gosta tanto de paradoxos que por um momento se orgulha de ser homem que ultrapassa o século XX, numa noite solitária, homem branco classe média alta, formado em direito, cheio de leituras, quase um erudito! Homem branco de origem católica, mas não é bom para o intelecto voltar-se a religiões correto? Homens ateus são mais inteligentes. E a faca brilha mais anda. Ele sorri.
Discretamente busca um espelho e mira o outro. Aquele outro de bigode e cartola, de olhos amarelos. Aquele outro que podem ser tantos outros. Em seguida este outro começa a transformar-se em operário, com olhos profundos tristes e distantes, uma vida se apagando para encher a cabeça de flores. Um lindo jovem loiro, um elfo das cidades, com suas roupas indianas em plena metrópole, distribuindo flores a soldados. E elas viram correntes, e as roupas viram couro, e lá está ele, em uma briga de gangue, com uma suástica, batendo nas bichas. E lá está ele, travesti e prostituta, apanhando dos carecas. E de repente lá está ele, tomando LSD, se casando, explodindo coisas, tocando guitarra, com uma prancha, rastafári, atrás de um computador decifrando códigos com óculos de aros de tartaruga enquanto bate uma punheta pensando na mulher que nunca terá. E assim, vários ícones, em todas cores desfilam perante seu eu.
Ele pega a faca que brilha. O mundo é tão quente e tão cheio de coisas do lado de fora. Mas o coração ainda pulsa: mais ódio, mais ódio. Neste instante desejo uma janela, começo a sufocar, preciso de uma janela. Então faço uma fissura no peito. Primeiro a pele, depois os músculos. Com força separo as costelas e arranco ele. Lá está ele em minhas mãos,pulsando, me lembra um recém-nascido, uma criança, quente, inocente, pulsando, apenas cumprindo sua função de pulsar. Então me lembro que meu organismo tem suas necessidades e desejos, e o homem caminha até a cozinha, com seu coração recém-nascido nas mãos.
Pega garfo, faca, prato. Vai cortando em pedacinhos miúdos o coração. Do que adianta um coração para quem tem fome.
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