Clássicos da Sessão da Tarde: Curtindo a Vida Adoidado



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Clássicos da Sessão da Tarde: Curtindo a Vida Adoidado

Publicado em 07/05/2008, às 21:21, por Felipe de Amorim


Já faz um tempinho que vinha pensando em começar a falar sobre cinema por aqui… é isso aí cambada, não entendo só de literatura e quadrinhos, não. Eu sou o último renascentista. Minha idéia era começar com pelo cinema italiano, falar de Rosselini, e “Ladrões de Bicicleta”, e mostrar todo o caminho que nos levou de “Dolce Vita” até “Cinema Paradiso” (passando por “Holocausto Canibal” no meio do caminho…)
Mas daí fuçando uns velhos arquivos, encontrei uma lista de filmes que fizeram minha cabeça quando adolescente e pensei: muito mais legal seria falar dos filmes da Sessão da Tarde. E, nesse caso, eu SABIA que só poderia começar pelo meu filme preferido, o maior dos clássicos da Sessão da Tarde, a melhor fita de todos os tempos: Curtindo a Vida Adoidado.

Eu não estou brincando, nem exagerando, quando digo que é meu filme predileto. Eu sei que pode parecer estranho… tem quem pense que eu preferiria alguma coisa do Bergman, ou qualquer outra coisa velha, em preto-e-branco e falada em língua que não é de gente. Ledo engano. Tá certo, admito, curto um neo-realismo, sou grande fã do Lars Von Trier e gosto mesmo de “Jules et Jim”… mas nem mesmo Truffaut foi capaz de me marcar como as aventuras de Ferris Bueller. A primeira vez que vi esse filme foi em 1985, como uma das primeiras fitas que assisti no recém-comprado videocassete da família (filme em casa! uma revolução!) E eu não só lembro dessa primeira experiência como garanto que “Curtindo…” é um dos poucos filmes, talvez o único, que consigo reconstruir na memória de cor, cena por cena, e preservando boa parte dos diálogos.
Porque amo tanto “Curtindo a Vida Adoidado”? Não é tão difícil dizer… “Curtindo…” é, admitamos, um ótimo filme. Nos dias de hoje, em que a capacidade crítica da população entrou em franco colapso, e imbecilidade é vendida como se fosse humor (vide “Todo Mundo Em Pânico”) é até possível confundir”Curtindo…” como uma comédia comercial boba e descartável. Mas muito pelo contrário, esse provavelmente foi um dos filmes mais elaborados e engenhosos que já vi. O fato de que a maioria das pessoas nunca se tocou de como a estrutura de “Curtindo a Vida Adoidado” é complexa sem dúvida é um sinal inequívoco do enorme talento de seus roteiristas e diretor… Nós falamos aqui de uma comédia com três tramas paralelas principais (o passeio de Ferris, e a caçada empreendida pela irmã Jeanie e o diretor Roomney) que se entrecruzam em vários pontos, tudo isso realçado por diversas piadas recorrentes e, e aí está um dos pontos mais fortes do filme, sem sacrificar o desenvolvimento dos personagens.
Porque essa é a grande e verdadeira razão pela qual amo “Curtindo a Vida Adoidado”. Certo, é engraçado, ok, tem sacadas geniais (Ferris caindo em câmera lenta, e depois dedicando tempo em sua corrida alucinada para chegar em casa antes do pai para se apresentar para as vizinhas gostosas). Mas é também um filme sensível! Aí entra a genialidade de John Hughes, o roteirista e diretor que atingiu aqui o ápice de sua obra cinematográfica. Especializado nos filmes de adolescentes, o grande segredo de Hughes foi saber destilar a essência da juventude, entender melhor do que ninguém em Hollywood, antes ou depois, não o que os adolescentes queriam, mas o que eles ERAM. Assim como “Clube dos Cinco” expôs as inseguranças que todo habitante da puberdade divide, demonstrando o fator de união que transcende as divisões sociais, ou “Mulher Nota 1000” foi um delírio geral sobre fantasias sexuais dessas pobres vítimas dos hormônios, “Curtindo a Vida Adoidado” foi a opus magna sobre o espírito jovem: mais do que um personagem, Ferris Bueller era uma entidade infinitamente festeira, irresponsável e lúcida em sua determinação de extrair de cada segundo toda vitalidade da existência.
“Curtindo a Vida Adoidado” é meu filme predileto porque é o único filme que me ensinou. Nos apartes de Bueller para a platéia (e vale lembrar que metalinguagem era algo muitoa udacioso para a época), nas discussões com o ensimesmado Cameron (o verdadeiro herói do filme, conforme acompanhamos sua conquista da maturidade), Bueller nos mostra que arte, prazer, amor e diversão não são escape, ou tampouco indulgências. São algo necessário e urgente, quase uma obrigação de tudo que vive e respira. “Um cara que mantém uma Ferrari dessas na garagem não merece um automóvel tão bom” ecoa Bueller na minha memória. E eis aí sua verdade: a vida é uma Ferrari, que só tem real valor se for abusada. Claro, adotar essa postura exige riscos e envolve confrontar uma sociedade autoritária que pode até ter aparência de opressora e perigosa… mas, como podemos ver na descontrução de Jeannie e Romney durante o filme, está muito mais para medrosa ou simplesmente boba. Os vilões serão cooptados, nem que seja por um beijo de um jovem e então estreante Charlie Sheen…
Não é sobre bebedeira, ou putaria. Não é sobre quebrar as regras por quebrar, ou qualquer outro cliché fácil do jovem rebelde adolescente. É sobre o fato de que a vida se move rápido demais e precisamos achar, ativamente, o tempo para aproveitá-la… para ir em um museu, comer algo, passar tempo com quem é querido e ver o mundo de forma diferente. É sobre tomar a parada de assalto, e cantar e dançar. E compreender que as consequências a se pagar são infinitamente menores que o preço que será cobrado por uma vida mal-vivida. Hm. Vez ou outra alguém me faz algum elogio… eu tendo a me lembrar deles, putinha ávida de atenção que sou. Mas até hoje o que mais me agradou foi a minha amiga Heidi certa vez me dizendo como quem não quer nada: “Felipe, você É o Ferris Bueller!”
Se for verdade, devo ter feito algo certo afinal.
**************
O que vocês estão fazendo aí ainda? O post acabou. Vão embora. Xô. Xô.
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Kelly Kill

ntumbuluku é Segunddo Houaiss: n substantivo masculino Regionalismo: Moçambique (Sul). a origem da Natureza e da Humanidade Eu sou a Kelly Zeferino

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1 comentários:

Felipe Amorim disse...

Que bom que você gostou, fique à vontade para usar o texto.

E Save Ferris!

Beijão.