Bem, Deleuze fala que os filósofos criam conceitos, e os artistas criam "perceptos". Percepto seria "É um conjunto de sensações e percepções que vai além daquele que a sente." Bem, vamos a "eu" agora. Qual a minha visão de artista: sensibilidade. Na verdade, a idéia que tenho de arte ela abrange vários ramos do saber. Vc pode ser um astrofísico e um artista, vc pode ser um costureiro e fazer as costuras com arte. E há aquele que faz da arte o seu ofício. Estudar arte, produzir arte. Produzir sensibilidades. Eu fico puta com a galera que saí por aí colocando suas dores de cotovelo no papel e se dizendo artista. Arte envolve estudo. Colocar dores de cotovelo no papel pode vir a ser uma coisa excelente, mas depende de muitos outros fatores. Mas enfim, não quero falar dessas coisas que me deixam mal-humorada. Vou falar duma coisa simples, chamada sensibilidade. Nos últimos tempos, minha mente tem se repetido nesta idéia, de que arte é, além de outras coisas, sensibilidade. Criar sensibilidades e percepções, é fazer a gente perceber as coisas, verdadeiramente. Não sei como descrever isso direito, mas tem a ver com como viver a vida, tem a ver em experimentar a vida, em viajar nas coisas, seja nos sons, nas cores e luzes, na forma das rachaduras das calçadas, no barulho das ondas, nas histórias que as manchas das paredes contam. E ser atravessado por isso, pelo erotismo que as flores evocam. Na real é mais complicado que isso. É como chegar na praia. Vc pode achar bonito e ir embora ou pode se maravilhar com o cheiro do mar, o barulho das ondas, a dor da areia quente, etc, etc.
"Porque perceptos não são percepções. O que é que busca um homem de Letras, um escritor ou um romancista? Acho que ele quer poder construir conjuntos de percepções e sensações que vão além daqueles que as sentem. O percepto é isso. É um conjunto de sensações e percepções que vai além daquele que a sente. Vou dar alguns exemplos. Há páginas de Tolstoi que descrevem o que um pintor mal saberia descrever. Ou páginas de Tchekov que, de outra maneira, descrevem o calor da estepe. Há um grande complexo de sensações, pois há sensações visuais, auditivas e quase gustativas. Alguma coisa entra na boca. Eles tentam dar a este complexo de sensações uma independência radical em relação àquele que as sentiu. Tolstoi também descreve atmosferas. As grandes páginas de Faulkner! Os grandes romancistas conseguem chegar a isso. Há um grande romancista americano que quase disse isso. Ele não é muito conhecido na França, e gosto muito dele. É Thomas Wolfe. Ele descreve o seguinte: "Alguém sai de manhã, sente o ar fresco, o cheiro de alguma coisa, de pão torrado, etc., um passarinho passa voando... Há um complexo de sensações. O que acontece quando morre aquele que sentiu tudo isso? Ou quando ele faz outra coisa? O que acontece?"
Isso me parece a questão da arte. A arte dá uma resposta para isso: dar uma duração ou uma eternidade a este complexo de sensações que não é mais visto como sentido por alguém ou que será sentido por um personagem de romance, ou seja, um personagem fictício. É isso que vai gerar a ficção. E o que faz um pintor? Ele faz apenas isso também, ele dá consistência a perceptos. Ele tira perceptos das percepções. Há uma frase de Cézanne que me toca muito. Um pintor não faz outra coisa. Há uma frase que muito me impressiona.
Pode-se dizer que os impressionistas distorcem a percepção. Um conceito filosófico ao pé da letra é de rachar a cabeça, porque é o hábito de pensar que é novo. As pessoas não estão acostumadas a pensar assim. É de rachar a cabeça! De certa forma, um percepto torce os nervos e podemos dizer que os impressionistas inventaram perceptos. Mas Cézanne disse uma frase que acho muito bonita: "É preciso tornar o impressionismo durável". Quer dizer que o motivo ainda não adquiriu independência. Trata-se de torná-lo durável e, para isso, são necessários novos métodos. Ele não quis dizer que se deve conservar o quadro, e sim que o percepto adquire uma autonomia ainda maior. Para tal, precisará de uma nova técnica. E há um terceiro tipo de coisa e muito ligada às outras duas. É o que se deve chamar de afectos. Não há perceptos sem afectos. Tentei definir o percepto como um conjunto de percepções e sensações que se tornaram independentes de quem o sente. Para mim, os afectos são os devires. São devires que transbordam daquele que passa por eles, que excedem as forças daquele que passa por eles. O afecto é isso. Será que a música não seria a grande criadora de afectos? Será que ela não nos arrasta para potências acima de nossa compreensão? É possível."
Deleuze
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